DA IMORTALIDADE EM ESTÁTUA AO BANCO DOS RÉUS: O LABIRINTO DE CAÍTO E BACIRO CANDÉ

O futebol na Guiné-Bissau acaba de nos presentear com um filme que nem o melhor argumentista de cinema conseguiria prever. Passámos, sem escalas, da promessa de uma estátua à acusação de um crime de sangue. No centro desta tempestade estão dois nomes: Carlos Alberto Mendes Teixeira “Caíto”, presidente da Federação de Futebol da Guiné-Bissau, e Baciro Candé, ex-selecionador Nacional de futebol, que nos levou a quatro CANs consecutivos.
Em 2021, o discurso era de gratidão eterna. Caíto Teixeira foi a público dizer que Candé merecia uma estátua em frente à sede da Federação de Futebol da Guiné-Bissau, no Alto Bandim. Falava-se em “concurso público”, em “reconhecer feitos históricos” e em garantir que o “Mister Candé” tivesse uma vida digna depois da sua carreira como treinador profissional. Naquela altura, com três qualificações consecutivas, Candé era o orgulho da nação, o homem de família que elevou a nossa bandeira ao maior palco do desporto-rei do nosso continente.

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Cinco anos passaram. Da estátua, nem o pedestal se viu. O prometido nunca chegou a ser cumprido e o concurso público parece ter-se perdido nos corredores da FFGB.
A falha em cumprir a promessa da estátua é, por si só, um sintoma de uma gestão baseada no anúncio e não na execução. Mas a transição direta da negligência da homenagem para a virulência da acusação levanta questões éticas profundas.
Sem nunca ter cumprido a homenagem, o presidente Caíto Teixeira, surge agora com uma acusação gravíssima: afirma que Baciro Candé terá tentado assassiná-lo.
A pergunta que qualquer cidadão comum faz é simples: Como é que passamos do desejo de imortalizar um homem em estátua para a acusação de que esse mesmo homem é um criminoso?
Se Baciro Candé cometeu um crime, a justiça deve atuar com rigor. Mas é impossível ignorar o timing e a mudança radical de postura.
Por que é que a admiração de 2021 se transformou neste ataque em 2026?
Será que esta acusação é uma forma de apagar o legado desportivo indelével do Mister Candé ou de justificar o fim de um ciclo que não terminou da melhor forma?
Acusar um ícone nacional de um crime dessa magnitude sem apresentar provas irrefutáveis é um jogo de roleta russa com a credibilidade das instituições. Baciro Candé, com todos os seus defeitos técnicos que o debate desportivo possa apontar, é património imortal do futebol nacional. Tratá-lo como um criminoso comum, anos após ter sido prometido uma estátua, revela uma federação à deriva, onde as alianças são de conveniência e os ataques são de sobrevivência.
O futebol guineense não precisa de novelas de mau gosto; precisa de infraestruturas, organização e, acima de tudo, coerência. Prometer uma estátua e entregar uma acusação de tentativa de homicídio é um salto lógico que deixa qualquer adepto confuso.
Se não havia bronze, mármore ou pedra para a estátua, que houvesse, pelo menos, respeito pela história inabalável do Mister Candé.
Bissau, 28 de março de 2026
Por Carlos Amadú Baldé – CAB-SD | Jornalista e Politicólogo








