SILÊNCIO É CUMPLICIDADE: QUANDO O CAMPO VIRA LOTE, A CIDADE PERDE O JOGO

Há muito tempo a sociedade foi desafiada a resistir contra a tirania e contra a captura da consciência coletiva. Muita gente achou que era só briga de partido. Mas quem escapa da política, se por natureza somos todos animais políticos?
Este mês ouvimos a administração da Guiné Telecom tentar tapar o céu com peneira. Diz que existem dívidas públicas e que, para pagar, precisa lotear o campo do Bairro Militar. Que será feita uma “cedência”. Sou técnico. É mentira sem aspas.
A tese que incomoda
Vender espaço público para cobrir rombo de gestão é admitir que o Estado faliu na sua função mais básica: pensar o bem comum. Se toda empresa estatal endividada retalhar o chão que é de todos, Bissau vira um mapa de muros.
Os argumentos que doem
Primeiro, o óbvio legal: o Estado não vende terra. Faz cedência. Imprensas do Estado ou institutos não nascem por espontaneidade. Existem pela força legislativa que os criou. Extinção ou penhora de bem público exige instrumento próprio, não comunicado de gabinete. Ignorar isso é tratar a lei como rascunho.
Segundo, o custo social: aquele campo não é baldio. É sala de aula sem teto. É onde escolas treinam, torneios nascem, meninos chutam o primeiro sonho. Chamá-lo de “lote disponível” é apagar décadas de uso comunitário com uma assinatura.
Terceiro, a falsa solução: dívida se paga com gestão, não com patrimônio único. Vender o campo hoje resolve o caixa deste mês. E mês que vem? Vendemos a escola? O hospital? É trocar a porta de casa pela conta de luz.
A brecha da dúvida
Posso estar errado. Talvez a Guiné Telecom esteja num beco sem saída e a lei realmente permita essa alienação. Talvez exista um plano decente para realocar o desporto com estrutura melhor. Se existe, não foi mostrado. E o peso da prova é de quem quer murar o campo, não de quem joga nele.
Também admito: não tenho os balanços da empresa. Não sou jurista nem gestor público. Sou só um cidadão que entende que formação cidadã começa quando sabemos separar, pela fala, a verdade da mentira.

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O convite, não a ordem
Aquele espaço pode ser Escola Nacional de Desportos e Educação Física. Pode ser complexo multifuncional. Pode ser parque, biblioteca, o que a cidade decidir. Isso se tivermos governantes com cabeça para projetar a sociedade para o bem, e não para o próximo leilão.
Por isso, cada ato contra o público exige convergência. Não se deixa crime público passar só porque desfavorece o regime que apoio ou porque favorece o que combato. Eu não sou desportista. Mas tenho filha. E conheço meninos futebolistas que, sem aquele chão, perdem mais que um treino: perdem lugar.
Talvez devêssemos exigir que nenhuma cedência de metro quadrado público aconteça sem projeto, debate e compensação clara. Se estivermos errados, o preço é um atraso burocrático. Se estivermos certos, o preço de calar é uma cidade sem espaço para o próximo golo.
© Mamandin Indjai, Professor, Jornalista, Administrativista, Diplomado em Educação para a Paz e Cidadania








